terça-feira, 9 de agosto de 2011
Janela
Incalculadamente , os sonhos se fazem tão mais reais quando menos esperamos isso, incrivelmente de alguma forma, trasparecem as barreiras da realidade e confundem o ar com o cheiro suave de alguma coisa doce, doce demais pra se saber oque é, você então se vai, junto com alguma coisa que não sabe o porque de existir e não sabe ao menos pra onde se vai...
Uma cena muito me chamou a atenção hoje, num metrô, onde pessoas parecem ainda mais independentes e intocáveis, cada uma com sua própria órbita, cada uma com sua própria vida amarga, em uma estação, tão menos importante quanto qualquer uma daquelas que não nos leva a nosso destino planejadamente automático, uma mulher e seu filho, um menino de não mais que quatro anos... mas na realidade, a cena não se fez em sua importância nesse momento e sim no momento em que a mesma criança citada se pôs de pé na cadeira do metrô só pra olhar a janela. Ver a euforia nos olhos daquele menino me fez parar, ele sorria um sorriso tão limpo, um sorriso descrente da dor, onde talvez a maior preocupação naquele instante fosse conseguir ver bem cada detalhe pela janela que o separava do mundo ali fora, talvez até bem mais do que ele pudesse imaginar, seus olhos trasbordavam e se derramavam por cada pedaço daquele caminho, tão sereno e tão livre, e suas mãos pequenas não estavam nem um pouco parecidas com a forma que terão daqui a anos, talvez por um reflexo inútilmente humano, ou até mesmo por esperança tola eu sorri naquele instante , pra aquela criança que de tamanha curiosidade e euforia enchergava apenas a alegria de um mundo colorido e cheio de movimentos que naquele momento pra ele era tudo o que importava...
Uma estação depois a mãe segurou novamente aquela criança e desceu com ela, eu olhei pro menino, com um sorriso de satisfação, talvez eu nunca mais fosse ver aquele rostinho... então me dei conta de tudo que realmente era o fato de " ser " , não ser alguém , ou algo , mais ser apenas, ser por amor ao que se é, por fé, por acreditar em si e em outros que acreditam em você junto, olhar com os olhos mais inocentes, aproveitando o mundo colorido ai fora, pelo menos enquanto ainda lhe existem as cores, e quando nem isso sobrar, pintar dia após dia com sua própria cor , uma tela em branco, feita e refeita a cada dia, como se fosse a primeira vez.
O que me doeu ? foi saber que num futuro, aquela criança não recordaria dessa cena, desse colorido, o sorriso limpo, agora ofuscado pela contaminação do mundo, que não se restringe apenas ao ar, mais contamina a alma de um por um, e ele vai entrar pela porta daquele mesmo metrô, não mais como o menino sonhador e encantado, mas sim como mais alguém, guiado pela maquinaria de uma sociedade fria e calculista, e talvez dessa vez nem olhasse mais para aquela janela.
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