Ela havia lido nos livros histórias de anjos de grandes asas, anjos arrebatadores, inquietantes, cheios de vida e ao mesmo tempo de morte, anjos cujas asas levavam consigo um pouco da escuridão, acinzentadas, enegrecidas... Anjos cujos olhos devoravam qualquer alma, decifravam qualquer pensamento e atiçavam toda a imaginação, de vozes suaves, misteriosos, intrigantes... O tipo de anjos que só poderiam existir em livros mesmo.
Ela havia ouvido músicas que falavam de anjos, anjos que carregavam dores, anjos cujas asas haviam sido arrancadas, perdidos, sozinhos... Mas que em algum momento buscavam achar em alguém a vida que lhes faltava.
Naquelas páginas e notas ela encontrava a fuga da realidade, o sonho mais bonito, até ele aparecer em sua vida, e transformar o lúdico em real, e misturar a fantasia em sua mente, como talvez nunca pudesse ter sido feito antes... Ela estava diante do seu anjo, o anjo de grandes asas, o anjo dos livros e músicas, o que arrebatava, inquietava, o mesmo que a trouxe a vida e a levou para voar consigo, e logo depois a soltou no chão, o dono dos olhos devoradores de alma, que lhe decifrava pensamentos e lhe acordava a imaginação, o dono da voz rouca e suave que lhe causava arrepios, cheio de mistérios, trancado no seu próprio mundo, ele também carregava dores em suas asas, estava sozinho, perdido talvez... perdido em si mesmo, em seu mundo impenetrável, e mesmo assim ela o quis, o quis para si, para descobri-lo, voar com ele ela deixou o medo de lado e simplesmente foi, voou o mais alto que poderia ter ido, voou sem os olhos fechados, e ainda assim tem a sensação de não ter ido alto o suficiente. Mas agora este anjo estava diante dela, em carne e osso, não nos livros, não nas músicas, ele a olhava, a tocava, a sentia, e ela podia senti-lo também, sentir seu cheiro, seu gosto, sentir as batidas do seu coração contra seu peito enquanto estavam juntos, tão vivo e tão morto... Ele era a música e a fantasia, o conto... Encontrava nele o que buscava quando se refugiava em suas tristes melodias, nas páginas de seus livros, ele não tinha noção do valor que isso significava, ou talvez tivesse... E por esse motivo quem sabe, seu anjo bateu suas grandes asas para longe, levou consigo seu calor e seus mistérios, lhe deixou com um gosto de insatisfação por entre os lábios, queria mais de tudo aquilo, mas agora só oque lhe restava era a sensação de um dia ter estado em seus braços...

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